Rio - A cada dez Toyota Corolla vendidos no Brasil, apenas um Nissan Sentra é emplacado. Ambos são projetos de marcas japonesas, pensados principalmente para o mercado das Américas - e é mais fácil enumerar semelhanças do que diferenças entre os dois. Então, o que falta ao Nissan? Passamos uma semana com o carro na tentativa de encontrar uma resposta.
Recebemos a versão SL (topo da linha) em um dia abafado. Abrimos a porta com a chave dentro do bolso - há um sensor de aproximação embutido - e damos partida apenas girando uma borboleta no contato. O sistema é exclusivo do Sentra SL, e faz as chaves de Civic e Corolla parecerem coisa de museu.

Em desempenho e acabamento, o Sentra empata com o Civic e o Corolla. Só falta carisma (Fotos: Fernando Quevedo)
O calor acentuava o cheiro de couro e plástico da cabine, que logo estava agradável graças ao bom ar-condicionado e ao poderoso sistema de som Rockford Fosgate, que traz um novo monitor colorido no centro do painel. Outras novidades da versão 2010 são a grade modificada e os retrovisores rebatíveis - antes, os espelhos com carcaças fixas eram um terror em vagas apertadas.
DESDE QUE SE CONVERTEU, SENTRA PASSOU A EXAGERAR NA BEBIDA -Foi só apontar o nariz do Sentra na rua para relembrarmos as qualidades do carro. O câmbio CVT assume as rédeas com suavidade inigualável. O motor 2.0 16v, que há pouco se converteu em flex, sobe o giro em silêncio.
Mas a boa impressão foi abalada pelo consumo alto em todas as condições. Enquanto a versão a gasolina fez média de 13,6km/l na estrada (em nosso teste de julho de 2007), o modelo atual registrou 11,9km/l com o mesmo combustível - ambas as medições foram feitas no trajeto de ida e volta do Rio a Itaipava.
Afora essa decepção, o comportamento do Sentra é muito bom. A suspensão é firme (mais ao estilo do Civic e menos do Corolla), porém confortável. E há pequenos pecados. O ajuste do banco, por alavancas, é ruim: falta o acerto fino da roldana para regular o encosto. Já o volante só pode ser ajustado em altura. A visão pelo retrovisor interno é ruim, e um sensor de ré seria bem-vindo (a traseira alta atrapalha nas manobras).

O interior tem bancos de couro e monitor digital para rádio no painel
Os preços são atraentes. Um Sentra SL (R$ 71.990), topo de linha, custa menos do que um Corolla XEi automático (R$ 73.470) e ainda traz teto solar. A versão mais em conta do Nissan custa R$ 53.990, enquanto o rival Toyota, que fechou 2009 na liderança dos sedãs médios, parte de R$ 60.980 (XLi) e o Honda Civic, de R$ 65.745.
Mesmo nas versões básicas, os três concorrentes trazem de série ABS, airbag duplo e os confortos mais desejados: direção com assistência elétrica, ar-condicionado e som com leitor de MP3.
UM AMIGO PERGUNTA E ECONTRAMOS A RESPOSTA- Mas continuávamos sem resposta para a questão das vendas. Afinal, no México, onde é produzido, o Sentra é um sucesso. Explicações óbvias como o desconhecimento da marca e sua associação com utilitários 4×4 não colam mais.
Foi aí que, durante o teste, recebemos o pedido de ajuda de um amigo, o engenheiro Anderson Brasil, interessado em trocar um Civic 2005 por um carro mais novo. Estava na clássica indecisão entre os sedãs de Honda e Toyota. Falamos dos prós e contras dos modelos e perguntamos se ele já havia pensado no Sentra. O Nissan não despertou o menor interesse… Foi tratado como inferior, apesar de ser parelho com os rivais em dimensões, equipamentos e conforto.
Bingo! Para o grande público, falta a percepção de que o Sentra é um carro de bom nível - mesma situação que atravanca as vendas do Ford Focus e do Renault Mégane. O Nissan empata em qualidades como desempenho e acabamento, mas perde em carisma e status. Para virar esse jogo, só um bom trabalho de imagem.