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Por falta de hábito ou desconforto, cintos traseiros são ignorados

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Rio - Quem assume o volante ou vai ao lado do motorista tem à disposição um belo cinto de três pontos, facilmente ajustável ao corpo. Com o rigor da fiscalização, quase todos o utilizam. Mas, e quem está no banco traseiro? O mesmo equipamento está lá, a lei também abrange aqueles assentos, porém o uso quase sempre é ignorado pelos ocupantes.

“Não costumo pedir para os passageiros usarem, e quase nenhum bota o cinto. Tem gente que não gosta, reclama que vai ficar com a roupa amarrotada”, diz o chofer de táxi Paulo Roberto Duarte.  O que o taxista não sabe é que a vida dele também está em risco com esse comportamento dos passageiros. Em caso de batida a 80km/h, o impacto de um adulto de 70kg sobre o banco dianteiro equivalerá a 5,2 toneladas.

PESQUISA - Um estudo feito em 2001 pela Universidade de Tóquio mostrou que 80% das mortes de passageiros sentados nos bancos da frente teriam sido evitadas se os ocupantes dos assentos de trás estivessem com o cinto. Isso no Japão, país de rígidas normas de trânsito.

Além da falta de hábito, o desconforto desestimula o uso. No estudo “Cinto de segurança no banco traseiro do automóvel: por que nós não usamos?”, os pesquisadores Wilson Nobre (mestre em Design e Especialização em Ergonomia pela PUC-Rio) e Anamaria de Moraes (coordenadora do Laboratório de Ergonomia e Usabilidade da PUC-Rio) atestam que os assentos de trás da maior parte dos carros à venda no Brasil não se adequam ao transporte de três passageiros, para o qual são homologados.

A Volvo que inventou o cinto de segurança de três pontos (Foto: divulgação)

A Volvo que inventou o cinto de segurança de três pontos (Foto: divulgação)

O estudo mostra que quem anda no banco de trás tem uma falsa sensação de segurança: “O passageiro da frente percebe diante de seus olhos símbolos de perigo, como o vidro do para-brisa (cortante), as saliências e a rigidez do painel (contundentes) e a própria imagem dos obstáculos à frente do caminho (…). Enquanto o passageiro do banco de trás tem diante dos olhos o encosto acolchoado do banco dianteiro”.

O trabalho mediu as dimensões dos bancos dianteiros e traseiros de 12 carros de passeio: Uno, Corsa, Fiesta, Polo, Golf, Astra, Xsara Picasso, Zafira, Santana (ainda muito comum na praça), Vectra, Berlingo e Doblò.

Nos assentos da frente, todos os carros analisados oferecem espaço lateral suficiente, levando em conta padrões internacionais de aferição. Já atrás, nenhum deles oferece o espaço ideal: 50% da população não estaria confortável caso houvesse três ocupantes na traseira - situação que se agrava nos carros menores. Nessa situação, afivelar o cinto de segurança seria impraticável. Para piorar, a maioria dos projetos não traz regulagens para os cintos de trás.

“Em primeiro lugar, é preciso transformar em obrigatório de fato o uso do cinto traseiro. Em segundo, rever os projetos e a legislação, para que o assento do meio do banco traseiro deixe de existir em grande parte dos carros, em nome da segurança”,  afirma Anamaria.

CINTO DEVE SER SEMPRE USADO  - O estudo feito pelos pesquisadores da PUC conclui que “para que três passageiros possam viajar atrás, lado a lado num automóvel, com espaço de conforto/segurança semelhante ao dos passageiros da frente, deve-se pensar em aumentar a largura do compartimento traseiro em mais 50%, o que deixaria o veículo com frente de carro e traseira de ônibus”.

Portanto, pelas dimensões, os carros de passeio deveriam ser homologados para o transporte de quatro ocupantes, e não cinco. Isso já é comum entre os carros compactos vendidos na Europa.
De acordo com Nobre, quem anda no banco traseiro de versões mais baratas de carros como Mille, Gol, Fox, Palio e Siena tem ainda mais motivos para se preocupar, pois tais modelos não têm cinto de segurança retrátil sequer nas extremidades. Este sistema permite que o cinto seja enrolado e travado automaticamente, e é obrigatório nos assentos dianteiros desde 1985. 

“Sem o retrator, o cadarço do cinto precisa de uma segunda fivela para ajuste de seu comprimento de acordo com o tamanho do passageiro, algo demorado e difícil para usuários comuns. Se está longo, não protege corretamente e podem ocorrer ferimentos graves. Se é curto, fica impossível usá-lo”, explica o pesquisador, que cita ainda outros problemas:

- Quando em repouso, o cadarço fica frouxo e sujeito a embaraçar, torcer, sujar e cair para fora (no caso de carros quatro portas). Além disso, fica difícil instalar corretamente uma cadeirinha para crianças.

Crianças devem ficar presas corretamente (Foto: O Globo)

Crianças devem ficar presas corretamente (Foto: O Globo)

Para a Fiat, “o cinto traseiro fixo, se bem regulado, oferece a mesma segurança que o retrátil - cuja maior vantagem é o conforto de uso, o que não é um aspecto de segurança”. O fabricante diz ter interesse conhecer o estudo feito pelos pesquisadores da PUC e considera bem vinda qualquer iniciativa em prol da segurança. Quem sabe, no futuro, tais palavras se reflitam em carros básicos mais seguros.

Há um mês, Nobre escreveu um e-mail para o presidente do Conselho Nacional de Trânsito, Alfredo Peres da Silva, mostrando que é necessário rever a Resolução 48/1998 do Contran, que regulamenta o uso de cintos de segurança no Brasil. Apesar de obrigar a instalação de cintos de três pontos nas laterais traseiras, a norma não exige que o equipamento tenha mecanismo retrátil. Por enquanto, ainda não há resposta.

“Ter à disposição cintos confortáveis, eficientes e de fácil acesso nos assentos traseiros dos táxis, vans, ônibus e carros particulares deve ser um direito do passageiro, ao invés de ser um dever o uso de equipamentos desconfortáveis, ineficientes e difíceis de acessar. Os cintos que as fábricas oferecem somente nos carros de luxo devem, por lei, equipar também os carros mais baratos. Cinto de segurança é item básico para salvar vidas”, diz Wilson.




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