Rio - Se a primeira imagem que vem à sua cabeça quando se fala em São João da Barra é o velho conhaque de alcatrão, fique sabendo que a cidade está se preparando para dar um tempo na bebida e assumir o volante. Um grupo liderado pela prefeita daquele município, Carla Machado; pelo governador Sérgio Cabral; e pelo empresário Eike Batista acaba de retornar do outro lado do mundo.
A “Missão China”, como vem sendo tratada a iniciativa, visitou três fábricas de automóveis que pretendem se instalar no Brasil: Jac, Chery e Byd. As duas primeiras estão em estágio mais avançado nas negociações. Representantes da Jac já estiveram em São Paulo e no Ceará, e se preparam para voltar nas próximas semanas. São João da Barra está na programação, mas não será a única cidade do Rio de Janeiro a ser analisada.
Campo Grande, Itaguaí e Seropédica como alternativas.

Rein, o utilitário esportivo da Jac, tem motor de quatro cilindros e lebra o Hyundai Santa Fé(Foto: Divulgação)
O Super Porto do Açu, que está sendo construído no Norte Fluminense, pesa a favor do município. Mas o início de operação, previsto para 2012 segundo o grupo EBX, de Eike Batista, pode fazer o Governo do Estado pensar em novas alternativas. “Se os chineses não quiserem esperar, temos outras opções para oferecer, como Campo Grande, Itaguaí e Seropédica”, revela Julio Bueno, secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços.
Engenheiro metalúrgico, Bueno fez parte do grupo que foi à China. E gostou do que viu: na Byd, encantou-se com os modelos elétricos; na Jac, ficou impressionado com a capacidade de produção. A marca fabrica 500 mil veículos por mês, entre carros, vans, caminhões e ônibus - para se ter uma ideia, a Fiat faz, no mesmo período, 70 mil automóveis.

A Van Jac Refine é feita sobre a plataforma do Hyundai H100 (Foto: Divulgação)
Assim como a Jac, a Chery quer construir uma fábrica no Brasil. O anúncio foi feito em Pequim, durante seminário que contou com a participação do presidente Lula. Segundo a marca, a unidade produzirá 150 mil veículos por ano. São Paulo, Minas Gerais e Ceará dividem com o Rio as atenções da Chery. A inauguração está prevista para 2012.
LANÇAMENTO - Até lá, porém, os chineses preparam seu cartão de visitas para o mercado nacional. No dia 24, será lançado o primeiro automóvel da Chery no país: trata-se do Tiggo, utilitário montado no Uruguai com peças feitas na China.
Enquanto os carros chineses tentam ganhar as ruas brasileiras, os moradores de São João da Barra engarrafam as salas de aula: a prefeitura abriu inscrições para um curso gratuito de mandarim, com duração de quatro anos. A aula inaugural será já no dia 3 de agosto. Na terra do conhaque do milagre, o santo é chinês.
O Tiggo, primeiro carro da Chery a chegar ao Brasil, faz o estilo Ford EcoSport. Com preço estimado em R$ 49 mil, tem os elementos visuais comuns dos utilitários urbanos: estepe externo, pneus de perfil alto e faróis de neblina. O que mais chama a atenção, porém, são seus itens de série. Estão lá ar-condicionado, freios com ABS e EBD, airbag duplo e regulagem de altura de faróis.
Equipado com motor 2.0 16v, o Tiggo abrirá caminho para os outros modelos da Chery. É o caso dos hatches QQ3 e Face (mistura de Volkswagen Fox com Fiat Idea), além do sedã A3 - que terá o nome mudado no Brasil por causa do Audi. O trio chegará em setembro, com preços básicos que devem ficar entre R$ 24 mil e R$ 45 mil.
IMPORTAÇÃO - Ao todo, a Chery importará cerca de 20 mil unidades no primeiro ano para testar a receptividade do consumidor brasileiro. Uma concessionária será aberta no Rio, mas a data e o local ainda não foram confirmados. É possível que os carros ainda sejam comercializados em lojas de outras marcas, por meio de parcerias.
A estatal Chery - que é a maior das marcas 100% chinesas - calcula que, até o fim de dezembro, venderá 2.500 unidades no Brasil. Para 2010, os planos são ainda mais ambiciosos: 10 mil carros emplacados. Para isso, a fabricante está atenta aos gostos brasileiros, como a predileção por motores bicombustíveis. Os estudos para a adoção da tecnologia flex, no ano que vem, já estariam encaminhados, com fornecedores brasileiros.
Por aqui, a Chery vai operar com o apoio do Grupo JLJ, que atua no ramo de alimentação para escolas.
A Jac, por sua vez, tem dois modelos em condições de brigar por uma fatia do mercado nacional. Um é o A137, hatch que na China tem como rival o Honda Fit. O outro é o A138, sedã que disputa compradores com o Hyundai Accent.

Modelo A0 apresentado pela Jac este ano (Foto: Divulgação)
Com desenho desenvolvido em parceria com o estúdio Pininfarina, ambos têm airbags e freios com ABS, além de motor 1.5 16v da Mitsubishi.
Fundada em 1999, a Jac fabrica também o utilitário esportivo Rein (que lembra um Hyundai Santa Fé) e o subcompacto A0, além de caminhões, ônibus e vans.
BYD - Você confiaria numa fabricante de automóveis que começou sua história fazendo baterias para… celular? Pois a trajetória da Byd teve início exatamente assim, no fim da década de 90. Em 2003, a empresa obteve o direito de produzir automóveis como o sedã F3 - um clone do Toyota Corolla.
Por ter adquirido conhecimento das baterias de íon-lítio fazendo telefones, a Byd está avançada no desenvolvimento de veículos elétricos - em maio, foi contratada pela Volks para fornecer peças dos futuros modelos híbridos da marca alemã.
A Byd lançou recentemente o primeiro carro híbrido chinês: o F3 DM. Até 2011, fará seu primeiro veículo totalmente elétrico, o e6. O alvo do hatch já está decidido: o mercado americano.
O começo da Chery também teve suas peculiaridades. Fundada em 1997 pelo governo de Wuhu para estimular a economia local, a marca não conseguiu autorização para vender seus carros em toda a China.
Diante das dificuldades financeiras, o próprio dono da Chery (o governo de Wuhu) encomendou uma frota de táxis. Em 2001, a Shanghai Automotive Industry Corporation comprou parte da empresa, o que facilitou a distribuição da sua produção.