
JAC J3 Turin (Fotos: Ulisses Cavalcante)
Pela primeira vez um automóvel chinês está causando alvoroço entre os consumidores brasileiros. Com apenas dois meses de mercado, a JAC Motors é um assunto frequente nas rodinhas de amigos. A marca inundou todas as mídias com propagandas dos modelos J3 e J3 Turin, então é fácil encontrar notícias acompanhadas por uma foto do chinesinho e do Faustão.
Para esta avaliação, o ZAP Carros escolheu o J3 Turin, configuração sedã do modelo que marcou a estreia da empresa no Brasil. Neste segundo contato com o carro, as boas impressões causadas no lançamento foram confirmadas, mas seus principais defeitos também se mostraram presentes.


Interior tem acabamento melhor que a maioria dos nacionais de entrada (Foto: Divulgação)
Assim como ocorreu há dois meses, o JAC J3 Turin continua chamando a atenção por onde passa. A bordo deste chinês, prepare-se para responder perguntas de manobristas, frentistas e até de outros motoristas presos com você nos congestionamentos.
O J3 Turin mostra-se bastante adequado ao asfalto brasileiro. Por conta da suspensão elevada e para-choques altos, encara valetas, depressões e desníveis com valentia. Os amortecedores merecem pontos positivos, equilibrando maciez de rodagem sem comprometer demais a estabilidade.

Quadro de instrumentos azul oferece leitura fácil, mas poderia ter controle de intensidade (dimmer)
Outro destaque é o motor 1.4 16V, com bloco de alumínio e comando variável de válvulas. Perto dele, o 1.4 8V da concorrência parece uma peça de museu. Com 108 cavalos a 6.000 rpm e torque de 14,1 kgfm a 4.500 giros, é adequado ao peso do automóvel. Garante arrancadas satisfatórias no trânsito e chega a surpreender nas retomadas em alta rotação (uso rodoviário).
É rápido para “encher” e tem funcionamento suave. No entanto, se houvesse maior capricho no isolamento acústico da carroceria, as viagens a 120 km/h seriam mais confortáveis.

Motor 1.4 na verdade é 1.3, porque tem 1.332 cm³. Mesma estratégia adotada pela Honda em seu Fit

Cabo adaptador necessário para ligar um pen drive a entrada mini-USB do rádio original
Os números de desempenho fornecidos pelo fabricante estão na média do mercado, com aceleração de 0 a 100 km/h em 11,9 segundos e velocidade máxima de 186 km/h.
O pior defeito do Turin está na transmissão. Os engates são um pouco duros e imprecisos. A passagem de primeira para segunda é ruidosa. Em algumas situações houve problemas para engatar a terceira engrenagem, como as antigas caixas que “encavalavam”. Não percebi falhas no escalonamento de marchas, inclusive os buracos de potência são mínimos, mas a interface com o motorista precisa melhorar.

TODO MUNDO TEM DEFEITO (1) - JAC J3 (esq.) tem farois com regulagem elétrica e volante ajustável. À direita, detalhe do comando de seta do Chevrolet Vectra GT
Por dentro, o acabamento é superior ao dos nacionais de entrada. Ao contrário dos demais chineses à venda por aqui, a escolha de texturas e plásticos foi feita com esmero. Os encaixes plásticos são precisos e nota-se o cuidado de camuflar pontos de fixação de peças e parafusos. O quadro de instrumentos é funcional, com mostrador de temperatura do motor, nível de combustível, hodômetro digital, conta-giros e velocímetro.
O tom azul agrada, mas é intenso demais. Um regulador (dimmer) seria bem-vindo, pois à noite a luz é muito forte. As portas têm comandos elétricos dos vidros e retrovisores externos. Seu fechamento é mais pesado do que deveria, efeito provocado pelos puxadores muito próximos das dobradiças. Seriam mais leves se a posição dos puxadores fossem invertidas com o local dos botões dos vidros.

TODO MUNDO TEM DEFEITO (2) - Saídas de ar do J3 (esq.) têm acabamendo cromado. À direita, detalhe do Fiat Uno Mille Economy
A trava central é elétrica, mas é preciso recorrer ao anacrônico pino para destravar. No entanto, as quatro portas são abertas automaticamente quando o motor é desligado.
De série há ar-condicionado, aquecedor, direção hidráulica com coluna regulável em altura, freios ABS, airbags duplos e toca-discos com MP3. O sistema de som é simples, mas funciona a contento. O senão está nos detalhes. A porta mini-USB permite a conexão com dispositivos móveis, mas exige um cabo adaptador que fica pendurado quando se utiliza um pen drive, por exemplo (veja foto). Uma entrada USB convencional seria melhor.

Foto superior, bancos traseiros do J3 Turin; Semelhança de acabamento e estilo com o Nissan Tiida indica cuidado na escolha das texturas e tecidos do chinês
Em estilo, o JAC J3 Turin não deixa a desejar. Inclusive, em minha opinião, supera com folga concorrentes veteranos, como o Ford Fiesta, Chevrolet Corsa e Renault Logan.
Trazida ao Brasil pelo empresário Sergio Habib, o grande desafio da JAC Motors é enfrentar o preconceito do público acerca de modelos vindos da China. O receio não é em vão, pois até então os automóveis chineses conhecidos pelos brasileiros tinham qualidade sofrível. Além do alto risco de ficarem na mão pela rede insuficiente de assistência técnica.

TODO MUNDO TEM DEFEITO (3) - Painel de instrumentos do J3 (esq.) e do Ford Focus (dir.)
Por R$ 39.900, o J3 instiga os potenciais compradores pelo custo-benefício e pela possibilidade de rodar com um carro completo. Algo que a concorrência não faz pelo mesmo preço. Naturalmente a compra de um automóvel recém-chegado ao mercado sempre traz riscos. No caso da JAC Motors também, porém, são calculados.

TODO MUNDO TEM DEFEITO (4) - Interior do porta-malas do J3 Turin é forrado (esq.). Volkswagen Voyage (dir.) deixa cabos e metal à mostra