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Dez na entrevista e zero no comportamento. Qualidades pessoais são mais importantes que as técnicas

Categorias: CANAL RH

“As pessoas é que fazem a diferença nas organizações. Pesquisas mostram que o fracasso dos executivos no trabalho, grande parte das vezes, se dá devido a questões comportamentais?, diz a consultora Laís Passarelli, da Passarelli Seleção de Executivos — e dez entre dez colegas de profissão concordam com ela.

A prática dentro das empresas vem mostrando que há realmente esforços focados na melhor qualidade de vida dos funcionários, o que inclui bom relacionamento no ambiente de trabalho. Características como simpatia, capacidade de se relacionar, espírito de equipe, boa educação e atitudes de respeito em todas as áreas, incluindo aí de preocupação com a preservação ecológica à militância voluntária, estão cada vez mais sendo avaliadas. ?O comportamento é a base do futuro?, diz Antônio Botelho, da Watson Wyatt.

Em seu livro Criando:, Você e Cia, William Bridges observa que até mesmo numa empresa que faz produtos industrializados, os funcionários são solicitados para um ?trabalho intelectual? no lugar do tradicional ?trabalho industrial.? Bridges analisa que antes o processo de contratações se dava em torno do tripé dos três ?es?: educação (formação), experiência e endosso (boas referências). Hoje, as qualificações, segundo ele, giram em torno de dados pessoais, como desejos, aptidões, temperamento (habilidades sociais) e ativos (aqui ele classifica como vantagens incidentais que o candidato acumula pelo simples fato de ser quem ele é, por exemplo, ter crescido numa família que fala espanhol).

Mesmo com tais constatações, os consultores afirmam que as empresas hoje contratam pelo currículo, ou seja, pela capacidade técnica do candidato, e demitem pelo comportamento, que se revela inadequado. ?Há grandes escritórios que vêm mudando o modo de avaliar?, continua Botelho. ?Mas 90% ainda estão focados na técnica.?

Cássia Baldiotti Vendemiatti, diretora de Desenvolvimento e Educação Organizacional do Grupo Pró-RH, concorda com Botelho. Os dois acreditam que a ênfase na técnica ainda vigora porque, no Brasil, há poucas pessoas qualificadas para atender a demanda dos altos cargos que o mercado moderno passou a incorporar. Assim, é comum que o domínio de várias línguas, a faculdade de primeira linha, a experiência numa grande empresa acabem impressionando mais do que o lado comportamental. Mas, no dia-a-dia, esse executivo hiperqualificado acaba revelando posturas contraditórias à cultura e à vocação da empresa.

?Eles deixam a desejar na educação básica, como não saber pedir um relatório a um subordinado. Na área de TI (Tecnologia da Informação) você vê profissionais tarimbadíssimos, inteligentes, mas que entendem as pessoas como uma máquina?, afirma Vendemiatti.

Maçã podre

Conclusão veio de pesquisas das grandes consultorias junto às empresas para checar o que andava acontecendo nas entrevistas de desligamento de seus altos funcionários. ?O demitido sempre alegava motivos como ?não sou pró-ativo?, ?não sei trabalhar em equipe?, ?não me alinho com a cultura da empresa??, prossegue Botelho. ?As consultorias foram verificar e o quadro é esse mesmo. Muitas vezes um excelente técnico tem uma postura ruim e se revela a maçã podre da cesta.?

Dentro da maçã podre, Botelho enxerga principalmente a imaturidade. ?O profissional não amadureceu seus valores e dissemina isso internamente. Se ele tem uma performance comportamental mais ou menos e atinge bons resultados, ainda passa. Uma postura ruim, mesmo com resultados excelentes, é péssima porque as empresas querem ética, mais humanismo. A técnica tem de ser a base e funcionar como aliada do comportamento — , porque alguém com comportamento excepcional sem conhecimento de seu trabalho é a pior combinação.?

?Mas técnica sempre se pode ensinar, é algo que se aprende e desenvolve na prática mesmo?, defende Vendemiatti. ?Agora não dá para ensinar aquilo que vem de berço, que é educação, personalidade, caráter.?

Receita 

Botelho enumera as qualidades que ele acha fundamentais num bom executivo nesses tempos de novas filosofias:

- Comportamento alinhado com a cultura e os valores da empresa

- Respeito às diferenças — de idéias, valores, crenças, conhecimento, técnicas (?é preciso saber ouvir?)

- Comprometimento com a empresa e com as pessoas que trabalham nela

- Espírito de equipe ? saber dar e receber

- Autonomia responsável (o cara saber administrar bem a equação tempo/resultado)

Na lista de Vendemiatti a capacidade de relacionamento é fundamental, ou seja, o profissional deve ter uma boa rede de contato dentro e fora da empresa. ?Não basta ter atitude se o relacionamento não estiver alinhado à ética?, ressalta a consultora.

Laís Passarelli acrescenta o auto-conhecimento (a pessoa saber o que faz de melhor) e o auto-desenvolvimento (estudar sempre). ?Líderes bons fazem acontecer?, diz ela. ?Dão autonomia, confiam nos seus subordinados e compartilham seu conhecimento com eles. Outro dia, perguntei a um executivo se o sucessor dele estava pronto e ele levou um susto, disse que não. Eu pergunto: que líder é esse que não fez um sucessor??

Se por um lado faltam tais qualificações, Botelho concorda que, de outro, sobram comportamentos ultrapassados que desandam com a receita do bom chefe. O mais grave deles, segundo o consultor, é a liderança despreparada. ?Muitos são incapazes de se comunicar com seus subordinados, ainda não se preocupam em saber um pouco sobre a vida de cada um e têm dificuldade de falar francamente, têm medo de dar uma notícia ruim, como, por exemplo, dizer com todas as letras que não vai ter aumento de salário. Ou jogar pra cima do RH a responsabilidade por um corte de pessoal, como se ele não tivesse nada a ver com isso.?

O tipo puxa-saco, embora ultrapassado, ainda resiste dentro das empresas, segundo Vendemiatti, junto com o nepotismo, também fora de moda. ?Mas isso está mudando, grande parte do nosso trabalho hoje consiste em tirar esses vínculos familiares do mundo corporativo. Mesmo empresas com histórico mais tradicional e familiar, como as do interior, estão investindo em competência e deixando o protecionismo de lado.?

A especilista conta que já se discute o projeto de uma universidade com novos conceitos para atender a demanda de alguns segmentos. Mas, por enquanto, a mudança de rota vem sendo dada dentro das empresas e quem não se atualizar vai sobrar.

 

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Um comentário sobre “Dez na entrevista e zero no comportamento. Qualidades pessoais são mais importantes que as técnicas”
  • luis disse:    ( 17.10.2009 às 22:04 )

    Muito boa a reportagem.


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