Brasília - A crise financeira internacional afetou de modo diferente o emprego de homens e mulheres, freando o processo de feminização do mercado de trabalho brasileiro, segundo um estudo realizado pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Avançada (Ipea), a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o IBGE.
De acordo com o documento apresentado nesta manhã, entre setembro do ano passado e abril de 2009 houve queda na população economicamente ativa (PEA) feminina em algumas das principais regiões metropolitanas do país, como Salvador (-3,0%), Belo Horizonte (-1,5%), Porto Alegre (2,3%) e São Paulo (-1,9%). No mesmo período, a PEA masculina não recuou em nenhuma metrópole brasileira. O dado - que se refere à quantidade de pessoas empregadas ou à procura de trabalho - revela que a retração no dinamismo da economia brasileira retirou, relativamente, mais mulheres do que homens do mercado.
O estudo sugere que isso acontece devido à maior probabilidade da mulher assumir as atividades de casa, seja porque o empreendimento familiar no qual trabalhava não sobreviveu à turbulência, ou porque a perda de renda impossibilitou a manutenção de uma empregada doméstica. Embora a taxa de desemprego masculina nas seis regiões pesquisadas pelo IBGE tenha aumentado 24% durante a crise - contra 11,2% para mulheres - as trabalhadoras que perderam sua ocupação no período não se tornaram necessariamente desempregadas, pois muitas voltaram à inatividade e, portanto, não contam nessa estatística.
Apesar de empregar mais homens que mulheres, a indústria demitiu proporcionalmente mais mão-de-obra feminina (-8,38%) do que masculina (-4,81%). Neste recorte, as dispensas foram maiores entre as mulheres negras (-9,96%) do que entre as brancas (-7,73%). A pesquisa ainda mostra que o fechamento de vagas no serviço doméstico tipicamente masculino - jardineiros, motoristas, caseiros - foi consideravelmente maior (-5,66%) do que no serviço doméstico desempenhado pelas mulheres, como os cuidados com a casa e crianças, com retração de 0,89%.
“Abrir mão do trabalho exercido por esta trabalhadora parece ser, portanto, algo mais ‘custoso’ para as famílias, mas especialmente para as mulheres, pois o trabalho dito ‘reprodutivo’ lhes impõe jornadas maiores e mais intensas de trabalho e impacta decisivamente suas oportunidades de entrada e permanência no mercado de trabalho”, aponta o documento.
Assim como aconteceu com os homens, o impacto da crise foi maior no emprego das trabalhadoras sem carteira assinada (-13,53%). Além disso, de setembro a abril, o salário de admissão das mulheres foi menor do que o dos homens em todos os setores da economia. A desigualdade foi ainda maior entre os mais escolarizados, cujo salário inicial de um gênero foi equivalente, em média, a apenas 65,39% do outro.
A precarização do trabalho feminino também é evidenciada pelo aumento do número de mulheres desempenhando atividades sem remuneração, com, por exemplo, nas empresas familiares em substituição a funcionários demitidos durante o abalo.